Da Velhice e da Exigência de
Continuidade das Coisas
Marisete
Malaguth Mendonça - 08 de Janeiro de 2016
Deixe o
velho fazer ao modo dele! Senão vai se impor a angustiante questão: “tudo com
que ele se identifica, acabou?” “Não
existe mais o seu jeito antigo de fazer o café?” Então... “quem sou eu?” Diante do estranho, eu
não me reconheço! A vida sofre uma interrupção, não continua, porque a sensação e a certeza de estar vivo precisa
de referências externas! E novos modos são alheios! Eu os presencio, mas
não me confirmam a existência. É ali onde
não estou! É preciso re-encontrar o
familiar para que eu me re-encontre. Esse familiar é que me dá a certeza de
continuidade...e portanto, de existir. A experiência da continuidade das coisas
é a própria experiência da permanência da
vida, a certeza de que se está vivo. No envelhecimento, me parece ser,
progressivamente, a única certeza! “As coisas continuam, então eu continuo”. É uma fase existencial em oposição polar à
da criança, na qual a sensação de vida se
dá na descoberta. As descobertas vão estruturando seu edifício vital.
Não estamos separados das coisas e do nosso jeito de lidar com elas. Nosso eu se forma no curso desse encontro e desse fazer. No encontro com as coisas, eu digo: “Eu lhe reconheço” E elas me dizem: “Eu lhe reconheço”. Reconheço e sou reconhecido. “Olhe! Essa é a chave velha da casa onde morei no bairro São Francisco!” A velha chave confirma meu tempo vivido tanto quanto um velho amigo!
Não estamos separados das coisas e do nosso jeito de lidar com elas. Nosso eu se forma no curso desse encontro e desse fazer. No encontro com as coisas, eu digo: “Eu lhe reconheço” E elas me dizem: “Eu lhe reconheço”. Reconheço e sou reconhecido. “Olhe! Essa é a chave velha da casa onde morei no bairro São Francisco!” A velha chave confirma meu tempo vivido tanto quanto um velho amigo!
Para
existirem, os velhos se apegam a seu lar. À sua terra. Ao seu país. Isso não
significa necessariamente o medo da morte. Significa simplesmente a necessidade
básica e primordial de estar certos de si mesmo. De não se perder no abismo e no caos do não-ser!
Por isso, o
velho precisa de alguém familiar. Esse alguém
garante a continuidade e, portanto, a referência de si mesmo, tanto pela sua
presença por anos de convivência como, em vista desse mesmo tempo, tenha tornado natural e fácil a essa pessoa, fazer DO JEITO QUE PRECISA SER FEITO, de modo
a promover a tranquilidade no espírito inquieto do velho.
Um aparente paradoxo nos surpreende: fragamo-lo escondendo sob sua quietude corporal, um insistente impulso da existência
anímica, impelindo-o ao voar fugitivo dessa mesma realidade permanente
a que se apega. Talvez justamente por resistir a esse impulso, a ela se apega!
Goiânia, 08
de Janeiro de 2016