quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Da Velhice e da Exigência de Continuidade das Coisas
Marisete Malaguth Mendonça - 08 de Janeiro de 2016

Deixe o velho fazer ao modo dele! Senão vai se impor a angustiante questão: “tudo com que ele se identifica, acabou?”  “Não existe mais o seu jeito antigo de fazer o café?”  Então... “quem sou eu?” Diante do estranho, eu não me reconheço! A vida sofre uma interrupção, não continua, porque a sensação e a certeza de estar vivo precisa de referências externas! E novos modos são alheios! Eu os presencio, mas não me confirmam a existência. É ali onde não estou!  É preciso re-encontrar o familiar para que eu me re-encontre. Esse familiar é que me dá a certeza de continuidade...e portanto, de existir. A experiência da continuidade das coisas  é a própria experiência da permanência da vida, a certeza de que se está vivo. No envelhecimento, me parece ser, progressivamente, a única certeza! “As coisas continuam, então eu continuo”. É uma fase existencial em oposição polar à da criança, na qual a sensação de vida se dá na descoberta. As descobertas vão estruturando seu  edifício vital.
 Não estamos separados das coisas e do nosso jeito de lidar com elas. Nosso eu se forma no curso desse encontro e desse fazer. No encontro com as coisas, eu digo: “Eu lhe reconheço” E elas me dizem: “Eu lhe reconheço”. Reconheço e sou reconhecido. “Olhe! Essa é a chave velha da casa onde morei no bairro São Francisco!” A  velha chave confirma meu tempo vivido tanto quanto um velho amigo!
Para existirem, os velhos se apegam a seu lar. À sua terra. Ao seu país. Isso não significa necessariamente o medo da morte. Significa simplesmente a necessidade básica e primordial de estar certos de si mesmo. De não se perder no abismo e no caos do não-ser!
Por isso, o velho precisa de alguém familiar. Esse alguém garante a continuidade e, portanto, a  referência de si mesmo, tanto pela sua presença por anos de convivência como, em vista desse mesmo tempo,  tenha tornado natural e fácil a essa pessoa,  fazer DO JEITO QUE PRECISA SER FEITO, de modo a promover a tranquilidade no espírito inquieto do velho.
 Um aparente paradoxo nos surpreende: fragamo-lo escondendo sob sua quietude corporal, um insistente impulso da existência anímica,  impelindo-o ao voar fugitivo dessa mesma realidade permanente a que se apega. Talvez justamente por resistir a esse impulso, a ela se apega!

Goiânia, 08 de Janeiro de 2016


domingo, 14 de fevereiro de 2016


Holismo, Ecologia e Espiritualidade
Marisete Malaguth Mendonça
Apresentação do "Encontro Goiano da Abordagem Gestaltica" que teve esse título em Maio 2009

 sabe-se que o "Holismo é o princípio que ordena a formação de todos no universo". 

Esta palavra vem do grego HOLOS que significa "inteiro" ou "Todo" e refere-se à concepção do Homem, dos outros organismos e cada realidade fenomênica como entidades distintas, completas e, contudo, estreitamente interconectadas.
A Ecologia é uma ciência holística, porque afirma qualquer espécie de vida,todos os viventes, como interdependentes e existindo dentro de uma rede de relações extremamente complexas. Esta ciência deriva das preocupações com o meio ambiente, que adquire suprema importância na contemporaneidade.
 Quanto à Espiritualidade pode ser entendida, com Fritjof Capra, como o modo de consciência no qual o indivíduo tem uma sensação de pertinência, de conexidade, com os demais seres e com o cosmos como um todo, o que torna claro que a percepção ecológica é espiritual na sua essência mais profunda ¹

Assim o Holismo,  a Ecologia e a Espiritualidade comungam a mesma episteme, a mesma visão de mundo, ou seja, que todas as realidades estão em interação estreita, imersas numa unidade cada vez mais integrada e numa interdependência com alto grau de complexidade.

Este pensamento integrador encontra-se na raiz da Abordagem Gestáltica, manifestando-se na sua teoria, na sua prática clínica, mas fundamentalmente, no seu entendimento do sentido do humano.

Marisete Malaguth Mendonça


¹ Fritjof Capra, A Teia da vida, 1996.