segunda-feira, 23 de outubro de 2017



Em 23\10\2017- Segunda Feira

O que é meu, nesse mundo? Tudo o que eu tenho, os outros me ajudaram a ganhar!
Até o asfalto onde correm as rodas do meu carro,  a condução que me permite o acesso mais rápido,  o alicerce e as paredes que protegem o meu trabalho...os professores que me introduziram no conhecimento, os autores que me doaram suas obras , os pesquisadores e os pensadores que me revelaram suas descobertas, os livros que eu li....
De toda essa estrutura mantenedora , apenas uma dimensão do meu trabalho é mérito meu . Só o desempenho naquele instante, só aquilo que eu faço de graça, mesmo eu sendo remunerada, é mérito meu.
“Mas os outros foram pagos para erguer a estrutura  sóciofisica que lhe sustenta!  Nada foi feito de graça!”
Sim. Mas se ganhei muito, eles ganharam, com isso,  menos que eu. Todos!  Peões, pedreiros, funcionários domésticos, professores, autores, pesquisadores, pensadores. Todos os que sustentam ... todos os que constroem as possibilidades concretas de outros ganharem  muita  coisa, recebem menos que eles.
Então, quando me dizem “sua casa”, como propriedade inalienável, eu me pergunto: “o que, de fato, é meu, nesse mundo?”  Eu conquistei o direito de usá-la; mas esse direito pode passar para outro ou ser compartilhado com outro, sob circunstâncias especiais. E nesse momento, vejo que nada é exclusivamente nosso; pelo menos, sob o ponto de vista do direito oriundo do contexto de interdependência em que cada ser humano está inserido.

“Toda dor da vida\ Me ensinou essa modinha
Que, de tolo, até pensei\Que fosse minha!
(Chico Buarque-“Até Pensei”)
... (E a “dor da vida”  não é a minha dor-MM)

sábado, 6 de maio de 2017

O Fascínio do Mistério
(Introdução à Mesa Redonda na UFG, que tratava da visão de diferentes abordagens psi sobre o tema  “Psicopatologia”)
Em 07 de Março de 2016                                         
Profª Marisete Malaguth Mendonça
           O modo psicopatológico ou alienado de existir é um mistério! Um mistério que desafia a inteligência e a determinação humanas! Um mistério que, como tal, fascina o homem na sua ontológica busca de sentido! Porque, esse modo, parece não fazer sentido! E a sua presença impacta a nossa lógica, levando-nos ao espanto e à estranheza precariamente contidos pelo  zelo e  cuidado com a nossa imagem profissional.
Que linguagem é essa? Não dominamos o seu código! Tateamos em busca do seu  entendimento, oculto nas sombras  ou em completa escuridão!
Estamos aqui, nessa mesa, como perseguidores do sentido do non sense!  É desejo de cada um de nós acender um luzeiro, mesmo pequenino, admitimos, como a chama de um fósforo, na escuridão que cerca esse nosso saber! E por isso, todos aqui estão. ávidos e inquietos, falantes e ouvintes.
Mas que essa pequena tocha que cada um neste lugar  inflamar, possa  permitir a todos os caçadores do espírito, alguns passos a mais na trajetória enfeitiçante de rastrear os caminhos, contornar os perigos e acessar os tesouros, ocultos na noite escura e silenciosa dessa  mata virgem, vibrante de potência e de vida!
Para que o nosso  não saber do mistério legitime o  estar presentes aqui, ante aqueles que esperam a certeza indiscutível do conhecimento como critério da verdade, recorremos à descoberta do maior  ícone da Ciência Moderna :
“A coisa mais bela que o homem pode experimentar é o mistério. É essa emoção que está na raiz de toda Ciência e de toda Arte!” Albert Einstein

UFG, 07 de Março de 2016


Significação dos Sintomas em Gestalt-Terapia
 Apresentado no "Primeiro Congresso Mineiro de Gestalt" – Belo Horizonte -Março 2017
Profª Marisete Malaguth Mendonça  - ITGT-Goiânia\Goiás

Resumo do Curso:                                                                                                                                         
Este artigo refere-se aos Sintomas resultantes da repressão ou interrupção dos afetos, aquelas interrupções chamadas de “neuróticas” na literatura Psi. Já os casos borderlines e psicóticos, cujas causas são mais primárias, não serão tratados aqui, mas em outra ocasião, quando for oportuno à organização do evento.                                              
Entendemos  os Sintomas como interrupções da energia dos afetos. Quando o indivíduo recusa ou é impedido de dar a resposta adequada e necessária à situação, a energia é bloqueada. Essa interrupção é uma estratégia de sobrevivência física, psíquica ou social. Mas como os complexos emocionais mobilizados não foram finalizados, permanecem como fundo não integrado. Com a continuidade da interrupção, a energia dos complexos emocionais vai se expressar por outras formas possíveis. Então, aparecem como Sintomas. Estes não são elementos externos e estranhos agregados arbitrariamente ao organismo como seres intrusos. Eles têm uma função aí. São eles mesmos originados pelas estratégias de ajustamento criativo do próprio organismo à situação não resolvida. Isto é, quando a Gestalt não evolui para  a ação necessária.                                                                                                                   
Consideramos, assim,  essa interrupção geradora do Sintoma psíquico como uma forma provisória de sobrevivência num campo perigoso ou ameaçador.  Ele então aparece aí alertando que algo deve ser mudado no campo ou no modo que o sujeito está-sendo-no-mundo.  Assim, ele se mostra também como parte do processo de cura.                  
 O Sintoma enquanto linguagem                                                                                         
Todo sintoma é uma mensagem do Organismo à consciência da própria pessoa e, por extensão, a seu círculo de relações inter-humanas: algo precisa ser mudado! O Sintoma é a fala do corpo  quando o diálogo interpessoal e intrapessoal foi  silenciado. Ele é mantido enquanto a pessoa tem ou acredita ter razões para temer a mudança; ou precisa dele para denunciar algum evento sofrido e não dito.                                                                                                                                       
A essência do ser Gestaltuma breve passagem pela teoria da Gestaltpsicologia nos ajuda no entendimento do processo sintomático.                                                                                                        A essência do ser Gestalt é a relação funcional partes-todo; isso é o que constitui o ser gestalt. Se as partes não têm relação funcional com o todo, não se trata de uma Gestalt. A Gestalt tem que fazer sentido, tem que constituir uma unidade. O sintoma está dentro desse mesmo princípio funcional. Ele está em relação com a totalidade organísmica, tem um sentido específico dentro dessa totalidade e é resultante da organização funcional de forças do organismo. Essa organização  é o princípio gerador do seu aparecimento fenomênico (da sua evidênciação). E esse é o porquê da aflitiva constatação dos terapeutas de que o sintoma resiste! Resiste nesse sentido de que algo está buscando se resolver graças a ele.  Resiste até ser ouvido! Não só pelo outro, mas em especial pelo sujeito mesmo! Até que façamos o que tem que ser feito. O nosso corpo paga caro quando a consciência silencía  e se recusa a ouvir e a fazer que é preciso ser feito na situação provocadora.                                                                                                                                        
Em síntese:                                                                                                                                                                Três Perspectivas Possíveis no Entendimento dos Sintomas:                                                                         
 a) Do ponto de vista da significação, o Sintoma não é um “mal” a ser eliminado, mas uma  mensagem, um indicador de que a   totalidade da pessoa enfrenta um obstáculo a seu desenvolvimento,  necessita de solução e está buscando a solução.
b)      Do ponto de vista funcional, podemos entender o Sintoma como expressão da energia usada no conflito. Ou seja, como a manifestação de que a pessoa está  em intensa atividade dinâmica  conflitiva , entre a força da energia interrompida pressionando para emergir e a força opositora  presente  que  visa manter o complexo emocional retido e o  mesmo modo de ser no mundo.
c)      c) do ponto de vista fenomênico, o sintoma é o equivalente corporal ou somático da gestalt interrompida.


 Palavras-chaves: sintomas, interrupção da energia, relação organísmica  partes\todo, significação, cura. 

sexta-feira, 5 de maio de 2017

NINGUÉM É MELHOR QUE NINGUÉM?

Sempre ouvimos dizer que ninguém é melhor que ninguém! E essa sentença confunde a nossa consciência! Pois sabemos que Madre Tereza de Calcutá, Chico Xavier, Martin Luther King foram pessoas notadamente melhores que as outras!(e talvez alguma pessoa de nossa própria convivência!)...
E então?! O que torna a pessoa melhor? Não é seu curso de Doutorado, Pós-doutorado, seu PhD , sua Riqueza, difícil ou habilmente conquistada , seu Poder, nem sua Fama ou Celebridade; nem sequer sua afiliação a uma Religião, a uma Profissão Humanitária ou a um Partido Político genuinamente democrático. E nem mesmo sua notável Inteligência ou seu autêntico Talento! O que torna a pessoa melhor é a sua ATITUDE para com o semelhante humano, para com a natureza e para com qualquer outro ser vivente! DESSE LUGAR, NINGUÉM ESCAPA ILESO!... OU SAI MELHOR OU PIOR! O resto é mera e tola arrogância!
Marisete Malaguth Mendonça
Goiânia, 30 de Outubro de 2016

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Sobre a Consciência e o Cuidado

Marisete Malaguth Mendonça
 09\11\2016

 Minha tia foi criada em fazenda e, como filha mais velha, recebeu do pai a tarefa de matar os gatinhos recém-nascidos e jogá-los no córrego cristalino que corria caudaloso no fundo do extenso quintal da casa. Tornou-se uma mulher alegre, saudável e solidária para com todos ao seu redor, que viveu até os 96 anos uma vida feliz e divertida, viajando pelo país e morrendo serenamente, em casa, após essa idade. Ela não tinha consciência dos gatinhos como seus semelhantes, enquanto seres viventes.
 A Consciência é que adoece o sujeito de uma culpa não reparada. Sem Consciência, o sujeito vive uma vida natural, feliz ou indiferente. Os torturadores da Ditadura que morreram de câncer foram aqueles em quem ainda restava uma Consciência da mesmidade humana de todos os homens e, por isso, do mal que praticaram. Torturadores inconscientes morreram velhos e saudáveis, exceto pela decadência própria da velhice de todos nós*. Os psicopatas vivem tranquilos desde que não corram o risco de serem punidos. Não significa que estes indiferentes ante o erro e a maldade não tenham Conhecimento. Porque a Consciência não é Conhecimento. O Conhecimento é uma apreensão que o sujeito faz do outro (qualquer ente vivo ou coisa) enquanto um objeto de sua observação ou do seu interesse, apreendendo-lhes algumas características observáveis ou alguns perfis de sua manifestação. Ao Conhecimento, enquanto tal, não interessam considerações sobre o Bem e o Mal. Esse é o papel da Consciência. A Consciência é a visão da essência ou da realidade das coisas, partindo naturalmente da observação atenta, mas penetrando naquilo que está presente, embora não seja visto. A Consciência está inerentemente vinculada ao sentimento de pertencimento e empatia. Assim, é uma experiência vivencial e não apenas racional. A realidade é percebida como um todo, não em todas as suas possibilidades, mas na sua essência e na sua interconexão com o observador.
 Com frequência, os termos Conhecimento e Consciência são usados de forma indiscriminada. Mas estou, aqui,fazendo uma distinção. Podemos então falar em Consciência Holística (referindo-nos a esta visão das essências da coisa e das suas interconexões, logo, da percepção de pertencimento vivida pelo sujeito consciente) e de Consciência Racional (ao Conhecimento do objeto separado do sujeito). 
 Parece que a Consciência surgiu para o Social ou para o Outro. Para cuidar de si mesmo não é preciso a Consciência. Basta a integridade física e o Conhecimento dos recursos do meio. É uma tarefa natural e inata, necessária à sobrevivência do individuo, homem ou animal. Já a Consciência (no sentido descrito)foi desenvolvida no processo evolutivo para que o homem cuidasse do outro e da natureza. Tanto que, no sábio e ancestral mito do Paraíso, ao comer da árvore do Bem e do Mal, Adão e Eva perderam a paz ingênua em que viviam. Assim como eles,  não podemos descansar em paz quando somos conscientes do mundo que clama. E tomaram concretamente a tarefa de cuidar não só de si, mas de toda a natureza. Como  é exigido  de nós, ante esse mesmo mundo. E daí para frente, começaram a sofrer as consequências dos seus atos e das suas culpas, ante o desvio da missão que a Consciência lhes reclamava cumprir. A culpa não é o castigo da Consciência. A culpa é o aviso da Consciência de que não estamos certos ou omissos com o cuidado com o Outro, com a Comunidade ou com a Natureza e, mais raramente, talvez até conosco mesmo. 
 Aliás, as biografias indicam que para um cientista genial e legítimo, o Conhecimento Racional é ultrapassado, a certo momento do estudo, pela Consciência da essência ou da verdade do objeto. Porque o Conhecimento real evolui para a Consciência Holística. E então, este cientista é tomado por profunda reverência e humildade ante a coisa que se desvelou, jamais possuído por vaidade, soberba ou arrogância ante a “posse do conhecimento”. Porque assim, se tornariam meramente homens de muito conhecimento e pouca sabedoria! Pois muito conhecimento pode-se adquirir em qualquer chip de computador atualmente. Já a sabedoria não pode ser adquirida. Ela se  des-envolve do impacto do mundo que cai, de surpresa,  sobre mim e me deixa em choque, num espanto admirado e mudo ante ele.

 (Pensamento acessado numa página sufista: “Não é uma tarefa fácil lidar com a clareza em um mundo de cegos. Ver aquilo que outros não vêem é um desafio a ser enfrentado com serenidade e coragem. A sensação de isolamento é forte, um grande desafio a ser superado”.
em: http://despertarcoletivo.com/os-quatro-inimigos-do-homem-de-conhecimento)

 *Como o ditador e torturador Augusto Pinochet, que faleceu em 2006.
Conflito na relação de dualidade:  Presença ou Falência da Estrutura  Dialogal
Marisete Malaguth Mendonça
Goiânia, 23 de Abril de 2017
        Todo relacionamento é pontuado por eventuais momentos de conflito. Essa situação não é só inevitável, mas sinal positivo de uma  relação madura e saudável do ponto de vista gestáltico. Em vista da condição de singularidade inerente a todo ser humano, é lógica e psicologicamente impossível uma relação em que a coincidência total entre desejos, necessidades e decisões aconteça. Quando não existe diferença na fronteira de contato entre o Eu e o Tu, estamos diante de uma  relação confluente, em que um Eu se mostra frágil e perigosamente sem limites próprios. Porém, se constatamos que o senso de identidade dos parceiros esteja íntegro, temos a pseudo- confluência, revelando  que a relação dual  está se configurando num modo de convivência autoritária ou de poder de um sobre um outro submetido. Em ambos os casos, vemos a falência da dialogicidade, uma convivência excluída do caráter do que é dialógico e, portanto incompatível com a saúde do sistema dual.
Os pequenos e eventuais conflitos  são resolvidos em decisões mútuas, em que a energia emocional requerida é de baixa intensidade e não altera a natureza dialogal da convivência habitual, que, via de regra, se reequilibra  num nível de maior integração que o nível anterior em que se achava.
Quando falamos de Conflito Dual, não nos referimos ao evento relacional descrito acima. Com frequência, nos referimos  a situações permanentes, carregadas de intensa energia emocional, resultando em experiências muito  estressantes para o casal e  colocando em risco a permanência do relacionamento, a  cisão  por desavenças, desentendimentos e  indisposições não superados.

Podemos usar a tese dialógica de Martin Buber, como parâmetro por intermédio do qual tentamos alcançar a compreensão da relação dual. Este  autor não poupou esforços durante toda a sua vida, dedicando-se de forma profundamente inspirada, ao entendimento da interrrelação humana..
 O princípio fundamental da relação buberiana se acha no conceito de “entre”. Tudo acontece “entre nós”. Isso quer dizer que o outro se reconhece através de nós e nos reconhecemos através dos outros. Ingressamos no nosso ser através do relacionamento. A natureza do relacionamento é produto do encontro do EU com o TU.                                                                                                                                                          O que acontece nesse “entre” que configura a imutabilidade da estrutura de conflito?
Existem várias possibilidades de entendimento dessa estrutura relacional. Não é nossa intenção esgotar todas elas. Pelo contrário, pretendemos contribuir aqui, com um modelo que permite uma abordagem parcial,  rápida e pragmática da relação dual, com destaque especial  para a  relação de casal. Nesse modelo, utilizaremos duas categorias: eventos costrutivos e eventos destrutivos da relação.  Tudo acontecendo  no “entre dois”, tanto os eventos relacionais mais ou menos construtivos como os eventos  mais ou menos destrutivos do encontro. Cada um dos parceiros provavelmente contribui com eventos de ambas as categorias, sendo muito oportuno e de utilidade funcional no processo terapêutico, identificar com a dupla, quais eventos tendem a construir e quais tendem a destruir a parceria entre os dois.
Chamamos de eventos construtivos as mensagens verbais, não verbais e corporais que aumentam a auto-estima do parceiro, colaboram e contribuem para o seu projeto existencial. (lembremos Buber: Ingressamos no nosso ser através do relacionamento”)
Eventos destrutivos são mensagens verbais, não verbais e corporais que diminuem a auto-estima do parceiro e tendem a  boicotar, ou mesmo boicotam, o seu projeto existencial.
Normalmente a emissão de eventos destrutivos tem a ver com as gestalten não resolvidas de um ou de ambos, que as pessoas nem estão cônscias delas. Toda situação não resolvida tende a resolver-se ou fechar-se no encontro presente; sendo a situação de intimidade a mais privilegiada para a tentativas de resolução, pois esta ( a situação de intimidade) são as que mais reeditam processos vividos anteriormente. Como as gestalten não resolvidas são carregadas de intensa energia emocional bloqueada, é natural que pequenas reedições presentes resultem em reações de muito descontrole e estresse. O Terapeuta deve examinar não só quais as gestalten interrompidas emergentes na relação, mas em especial COMO elas estão tentando ser resolvidas entre os dois. Isso quer dizer que a forma eleita por um dos parceiros ou por ambos, pode estar contribuindo para a ruptura do sistema dual ou familiar. Mesmo, na rara circunstância em que apenas um dos parceiros é emissor de mensagens destrutivas, a relação acontece entre os dois e, inevitavelmente, a resposta do outro  parceiro será dirigida àquilo que está sendo vivido no encontro. É, portanto, inevitável que todas as mensagens verbais, não verbais e corporais que promovem o ser do outro ou que o diminuem, gerem reações sintônicas correspondentes (reações que  co-respondam: dão respostas à situação  mútua).

Mas como escapar das nossas gestalten não resolvidas? Mas é justamente isso o que está sendo feito por esse casal! Tentando escapar delas!¹  E pelo contrário, não há que escapar! Devemos sim, nos tornar conscientes dela! A consciência dos nossos antigos impedimentos nos mostra que eles persistem sendo impedidos aqui e agora e nos possibilita lidar de forma nova e funcional com essas questões. O Gestalt-terapeuta não precisa buscar no passado a Gestalt interrompida; ela se apresenta na relação dual ao vivo e portanto, o terapeuta deve facilitar o diálogo entre os dois. Nesse diálogo, deve ficar evidente  como cada um está contribuindo para a construção ou ruptura da relação. Nem sempre podemos saber se construímos ou destruímos pela simples observação, mesmo esta obsevação sendo atenta e focada. A repercussão no outro pode não ser uma gestalt clara, bem observável, quanto mais contida ou bloqueada  for a espontaneidade desse parceiro ou parceira. Por isso, a tarefa do Gestal-terapeuta de casal é criar um ambiente clínico seguro, sem cumplicidade parcial com nenhum dos dois, a ponto de facilitar a expressão sincera das repercussões construtivas e negativas de um sobre o modo-de-ser do outro.  A comunicação dessas repercussões pessoais é sempre uma inesperada novidade para cada um dos parceiros. E, algumas vezes, uma surpreendente e feliz novidade. A atitude de omitir a expressão de sentimentos amorosos de afeto, ternura, admiração preocupação e cuidado para com o outro é também surpreendentemente comum!
Por isso, na Abordagem Gestáltica, dizemos que a terapia de casal é basicamente a terapia da restauração do dialogo interrompido entre eles. Com a descrição das vivências sob o modelo dialógico personificado pelo próprio Terapeuta que, também  incentiva o seu exercício entre o casal, tentamos que os conflitos  oriundos das nossas injúrias passadas sejam expressos e se resolvam de forma nova, criativa a ajustada aos reais elementos do encontro presente.
Esperamos que fique claramente subentendido que estamos nos referindo ao casal que deseja preservar e manter o relacionamento, ou seja aquele em que a chama do vínculo amoroso ainda está acesa. Se a chama se apagou, não há nada a fazer. Esgotou-se o combustível. Agora, é partir para outra. Acender o lampião seguinte.
Matisete Malaguth Mendonça-

Goiânia\Go. Em 23\04\2017                      
¹“Eu tentei fugir de mim\Mas onde eu, ia eu tava\Quanto mais de mim corria\ mais perto de mim chegava” (Juraíldes da Cruz, cantor e compositor goiano)


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Questões sobre a  Abordagem Gestática 
Estas cinco questões abaixo foram enviadas por alunos do Curso Psi da UFMG,  da disciplina da  Profª Cláudia Lins.

Perguntas e Respostas:

 Compreensão diagnóstica:
1.  Quais perguntas devem nortear o terapeuta enquanto ele realiza o diagnóstico? 
R= O que deve nortear é uma investigação rigorosa sobre as experiências do cliente e sobre o seu contexto familiar, social e cultural onde acontecem suas experiências e  o significado que estas têm para ele.

2. Em sua experiência, o diagnóstico de um mesmo paciente muda durante a terapia? Como isso acontece?
R= Sim, muda à medida que ele vai mudando o seu funcionamento, o seu modo de ser-no-mundo. Se o modo-de-ser continua o mesmo , o diagnóstico é o mesmo. Porém, espera-se que, com uma boa terapia, o cliente vá aprimorando seus ajustamentos criativos e, dessa forma, vá se tornando mais fiel e mais ajustado às exigências do seu jeito singular de se relacionar com o mundo circundante. Por isso, o diagnóstico é considerado como “processual”: isso significa que o entendimento do psicoterapeuta vai acompanhando o processo em movimento do cliente.

- Relação terapêutica:
3. Você já lidou com pacientes que não queriam deixar a terapia - que gostavam de tê-la como parte integrante de sua vida? Como lidar com essa situação - de a pessoa querer permanecer no processo terapêutico por anos, analisando-se?
R= Vejo aí duas situações:
1.Quando a psicoterapia é longa demais, isto é, com uma duração de dez anos ou mais. Isso só acontece quando o trabalho não está respondendo às necessidades reais do cliente. Em geral, se está lidando com pseudos problemas e não com a questão central ou questões centrais  da vida da pessoa. O curso da terapia adquire um padrão de dependência, o que, no entender da Gestalt, é absolutamente anti-terapêutico. A psicoterapia visa fortalecer cada vez mais o próprio auto-suporte do cliente. O terapeuta pode estar sendo co-autor juntamente com o cliente do padrão de dependência, que atende a ambos.
2. Outra situação é quando o ajudado se recusa a abandonar, a despeito do terapeuta ter lhe dado “alta”. Nesse caso, ao resistir a retirar-se, a pessoa está comunicando algo “não dito” ao psicoterapeuta. Este precisa investigar o que é, pois há questões fundamentais não resolvidas, a despeito da avaliação do terapeuta de que o processo já deveria ser encerrado.  E isso não acontece na abordagem gestáltica, porque  que não usamos dar “alta” ao cliente. A nossa conduta é examinar, junto a ele, por meio de um modelo dialógico, o momento em que o mesmo  se sente  pronto para a conclusão.

- Intervenção individual em adultos:
4. A "Coleção Gestalt-terapia: fundamentos e práticas" - mais precisamente, o volume III - traz um capítulo sobre técnicas, dentre as quais Cadeira Vazia, Representação, Metáfora... há alguma especificamente que você tenha preferência por utilizar no público adulto, individualmente? 
R= Todas essas técnicas podem ser usadas. E não só as criadas por Fritz Perls, mas procedimentos auxiliares de outras abordagens também. Assim como outros enfoques usam as técnicas da Gestalt. Não é a técnica o que fundamenta a metodologia clínica da Gestalt. É o foco meticuloso na experiência do cliente (chamado de “atitude fenomenológica”). Qualquer técnica pode ser útil, se a experiência que emergir do seu uso, for confirmada e incondicionalmente respeitada pelo psicoterapeuta gestáltico

5. Pra você, qual o maior desafio presente na clínica com adultos? Haveria alguma especificidade nessa clínica em relação a outras? 

R= O maior desafio é lidar com o inesperado, com o imprevisível, pois a tendência da formação Psi (e de toda formação chamada “científica”) é buscar o controle da situação e encontrar a solução das questões, no nosso caso, das questões existenciais. Isso o cliente cobra de nós e o próprio psicoterapeuta é tomado de ansiedade quando não vê “a solução” do problema vivido. É certo que aprendemos que a Gestalt evolui para a melhor solução possível dentro das condições do campo.  No entanto, o nosso desafio supremo é ACREDITAR nisso!

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ITGT- Goiânia, 10 de Novembro de 2016

Profª Marisete Malaguth Mendonça