sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Questões sobre a  Abordagem Gestática 
Estas cinco questões abaixo foram enviadas por alunos do Curso Psi da UFMG,  da disciplina da  Profª Cláudia Lins.

Perguntas e Respostas:

 Compreensão diagnóstica:
1.  Quais perguntas devem nortear o terapeuta enquanto ele realiza o diagnóstico? 
R= O que deve nortear é uma investigação rigorosa sobre as experiências do cliente e sobre o seu contexto familiar, social e cultural onde acontecem suas experiências e  o significado que estas têm para ele.

2. Em sua experiência, o diagnóstico de um mesmo paciente muda durante a terapia? Como isso acontece?
R= Sim, muda à medida que ele vai mudando o seu funcionamento, o seu modo de ser-no-mundo. Se o modo-de-ser continua o mesmo , o diagnóstico é o mesmo. Porém, espera-se que, com uma boa terapia, o cliente vá aprimorando seus ajustamentos criativos e, dessa forma, vá se tornando mais fiel e mais ajustado às exigências do seu jeito singular de se relacionar com o mundo circundante. Por isso, o diagnóstico é considerado como “processual”: isso significa que o entendimento do psicoterapeuta vai acompanhando o processo em movimento do cliente.

- Relação terapêutica:
3. Você já lidou com pacientes que não queriam deixar a terapia - que gostavam de tê-la como parte integrante de sua vida? Como lidar com essa situação - de a pessoa querer permanecer no processo terapêutico por anos, analisando-se?
R= Vejo aí duas situações:
1.Quando a psicoterapia é longa demais, isto é, com uma duração de dez anos ou mais. Isso só acontece quando o trabalho não está respondendo às necessidades reais do cliente. Em geral, se está lidando com pseudos problemas e não com a questão central ou questões centrais  da vida da pessoa. O curso da terapia adquire um padrão de dependência, o que, no entender da Gestalt, é absolutamente anti-terapêutico. A psicoterapia visa fortalecer cada vez mais o próprio auto-suporte do cliente. O terapeuta pode estar sendo co-autor juntamente com o cliente do padrão de dependência, que atende a ambos.
2. Outra situação é quando o ajudado se recusa a abandonar, a despeito do terapeuta ter lhe dado “alta”. Nesse caso, ao resistir a retirar-se, a pessoa está comunicando algo “não dito” ao psicoterapeuta. Este precisa investigar o que é, pois há questões fundamentais não resolvidas, a despeito da avaliação do terapeuta de que o processo já deveria ser encerrado.  E isso não acontece na abordagem gestáltica, porque  que não usamos dar “alta” ao cliente. A nossa conduta é examinar, junto a ele, por meio de um modelo dialógico, o momento em que o mesmo  se sente  pronto para a conclusão.

- Intervenção individual em adultos:
4. A "Coleção Gestalt-terapia: fundamentos e práticas" - mais precisamente, o volume III - traz um capítulo sobre técnicas, dentre as quais Cadeira Vazia, Representação, Metáfora... há alguma especificamente que você tenha preferência por utilizar no público adulto, individualmente? 
R= Todas essas técnicas podem ser usadas. E não só as criadas por Fritz Perls, mas procedimentos auxiliares de outras abordagens também. Assim como outros enfoques usam as técnicas da Gestalt. Não é a técnica o que fundamenta a metodologia clínica da Gestalt. É o foco meticuloso na experiência do cliente (chamado de “atitude fenomenológica”). Qualquer técnica pode ser útil, se a experiência que emergir do seu uso, for confirmada e incondicionalmente respeitada pelo psicoterapeuta gestáltico

5. Pra você, qual o maior desafio presente na clínica com adultos? Haveria alguma especificidade nessa clínica em relação a outras? 

R= O maior desafio é lidar com o inesperado, com o imprevisível, pois a tendência da formação Psi (e de toda formação chamada “científica”) é buscar o controle da situação e encontrar a solução das questões, no nosso caso, das questões existenciais. Isso o cliente cobra de nós e o próprio psicoterapeuta é tomado de ansiedade quando não vê “a solução” do problema vivido. É certo que aprendemos que a Gestalt evolui para a melhor solução possível dentro das condições do campo.  No entanto, o nosso desafio supremo é ACREDITAR nisso!

https://ssl.gstatic.com/ui/v1/icons/mail/images/cleardot.gif
ITGT- Goiânia, 10 de Novembro de 2016

Profª Marisete Malaguth Mendonça

domingo, 29 de maio de 2016

Identidade Humana e Crise

Identidade Humana e Crise
 XXII Encontro-  22 de Maio de 2016
Marisete Malaguth Mendonça
E-mail: marisetemalaguth@gmail.com
Blog: mmalaguth.blogspot.com

Só aquilo que somos realmente tem o verdadeiro poder de curar-nos."
Carl Gustav Jung
Roteiro:
 O que  é Identidade
A Crise da Identidade
A busca do sentido de Ser

Conceito de Identidade
Identidade é “a unidade do individuo que tem o sentimento de permanecer parecido consigo mesmo pela diversidade de estados por que passa  em sua existência”
Dicionário de Filosofia- Gérard Durozoi e André Russel, pág. 243

 Crise da Identidade Pessoal
 A Crise da Identidade  se origina em dois processos:
1- Na alienação do Corpo.
De onde vêm as informações que nos mostram que somos a mesma pessoa ao longo do tempo? Como essas informações chegam à nossa consciência como subjetividade e  como identidade? Apenas pelas lembranças? E se esquecermos de nossas experiências passadas como, realmente, é o que acontece com a maioria dos eventos vividos por nós?
Como eu sei que sou Eu, isto é, conservo a minha identidade, a despeito dos limites, enganos e lapsos da minha memória? Onde se alojam as informações que me asseguram de mim mesma?
 O senso de identidade provém de uma sensação de contato com o corpo.
No corpo se alojam as funções de contato, que resultam nas nossas percepções e  sentimentos, conscientes ou não, marcados pelo timbre de propriedade inconfundível porque sentidos  no corpóreo, que é a minha  mais concreta e inabalável  certeza  da existência.
 Eu sinto e sei que existo! Mesmo se perco a memória. Existo.
A alienação  do Corpo  é a interrupção, a quebra da continuidade  das informações organísmicas corpóreas, pré-reflexivas, de modo que as sensações e impressões vividas  e percebidas não chegam à consciência e, portanto,  a pessoa  não sabe  com clareza quem ela é.
O Ciclo do Contato
No processo de interconexão corpo-mundo, é mobilizada no corpo, uma energia que percorre um trajeto chamado por Perls et col.(e colegas) Ciclo de Contato. Essas vivências corpóreas, constituem a consciência pré-reflexiva,  que evolue naturalmente até a  consciência reflexiva e, nos dão noticia de nós e do mundo.                                                                                                                      O pré-reflexivo é anterior à awareness (antes de nos darmos conta, vivemos  o nível pré-reflexivo)
Estamos expostos a uma dimensão existencial em que eu e mundo não se separam.
 No  pré-reflexivo não existe distinção entre sujeito e objeto: não existe um sujeito que percebe e um objeto que é percebido; um sujeito que escolhe um objeto que é escolhido.
 Apenas vivenciamos nosso estar no mundo de forma completamente unitária, sendo aquilo que tem que ser,  pela determinação exclusiva das condições do campo, que nos inclui. Nesse nível,  o  nosso saber da realidade é rigorosa e exclusivamente corporal -a consciência pré-reflexiva.
O pré-reflexivo é a experiência  original e originante, que funda e que dá base à nossa experiência consciente ou à nossa awareness
A consciência pré-reflexiva não é antagônica à reflexiva. Elas se complementam na  awareness.
Esse é o caminho ou a evolução natural, na pessoa sadia,  do “dar-se conta”, do chamado “fluxo de awareness”.
Campo das possibilidades
O modo pré-reflexivo é o campo das possibilidades, de onde surgem a consciência dos diversos modos possíveis de ser.
A gestalt interrompida e fixa é a intervenção da pessoa sobre a vivência pré-reflexiva, ao invés de assimilá-la. E isso nos impede  de alcançar as incontáveis possibilidades de ser e de nos tornarmos.
O  Ciclo de Contato, essa emergia que percorre o corpo até nossa awareness,  acontece na gente, na pessoa. Ele não é externo.
Mas é uma função do Campo
Se nada acontece no Campo, nada acontece no Ciclo!
 “Como pode o homem sentir-se a si mesmo quando o mundo some?” (Carlos Drummond de Andrade- Especulações em torno da palavra homem-2002)
A Crise é a confusão sobre nós mesmos.
É o tormento de nos  sentir-se fora de nós, da perda das próprias sensações,  do não reconhecimento dos próprios sentimentos, do não saber dos nossos próprios desejos, dos genuínos desgostos, das genuínas preferências, das dificuldades recorrentes de tomar decisões, por não saber o que quero ou o que não quero, do que gosto  ou não, do que sofro ou do que me alegra.
“Devo achar isso que aconteceu como bom ou ruim?” “Devo me alegrar com isso ou devo me revoltar?” Esse é a condição da identidade que apela para uma tutoria externa.
Eu posso achar ruim estar me alegrando com  alguma  traquinice, mas eu sei que estou gostando! Isso pode até me doer! Só assim o gosto  “malvado” pela traquinice pode se transformar. Mas eu tenho que saber dele!
Enfim, se minha  identidade  é confusa, não distingo com clareza aquilo que  já  conheço de mim  daquilo que “se sabe de repente” na expressão precisa de Ferreira Gullar, no poema Traduzir-se.
A identidade é a nossa  consciência de nós mesmos, a nossa autoconsciência. A  questão surge, na Psicologia, quando associamos a identidade ou qualquer experiência subjetiva  à uma  consciência  inteiramente abstrata e atemporal, perdendo-se de vista a sua dimensão corpórea.
O corpo é o “lugar de um conhecimento originário do mundo e de si próprio, um saber sensível que antecede o conhecimento reflexivo, mas, ao mesmo tempo, o possibilita” (Merleau Ponty).
“A consciência só emerge como ato reflexivo a partir do que é percebido pelo corpo”.
No Curso  “Significação do Sintomas, fui indagada: ”E os sintomas que se dão no corpo, os psicossomáticos?”
Todo sintoma é, em última análise, corporal. Não só os psicossomáticos. O psicossomático apenas emerge como uma aparição, digamos assim, pública do corpo sofrido. Mas qualquer sintoma se dá numa corporeidade.
Então, a evitação  das nossas experiências corporais  vai nos levar a uma crise de identidade  de maior ou menor gravidade, em função de que sejam evitações  eventuais, ocasionais, esporádicas,  ou da cronicidade desse processo de evitação ou interrupções permanentes  das vivências primárias.
A aceleração com que podemos nos envolver na atualidade cotidiana, é um dos elementos desencadeadores dessa confusão, pela precariedade temporal do contato consigo e com o mundo.  
A “ atitude atentiva” é solapada pela subserviência à atitude cronometrada. “TEMPO É DINHEIRO”
Se essas alienações das sensações originárias atingem certa gravidade podem  chegar à despersonalização ou à psicose, pois o eu é posterior às relações que temos com o mundo.
Essa é a  primeira fonte da crise  da identidade: a alienação do próprio corpo.

2- O segundo processo é a Crise da Identidade Humana pelo desenraizamento da decisão.                    Nesse caso, a informação corporal chega à consciência reflexiva. Porém a pessoa opta de forma contrária à decisão exigida pela vivência pré-reflexiva
Essa decisão é descartada por interesses outros que não a fidelidade a si mesmo. Existem duas possibilidades dessa decisão infiel
O Falso Self
O deficit humano

A- O Eu Idealizado, o chamado “ Falso Self”
Tudo que é apresentado ao próprio Eu  ou ao mundo como auto-imagem ou hétero-imagem sem corresponder às experiências organísmicas genuínas, constituem o denominado  Falso Self.
O falso self é  uma infidelidade  da decisão que não implica necessariamente num déficit da humanidade  de pessoa, mas na necessidade de corresponder a expectativas
“Eu caçador de Mim”
Assim, TODOS NÓS temos uma dimensão falsa no nosso EU, algo que não corresponde ao nosso Self, ao nosso processo original  e genuíno, isto é, integrado ao pré-reflexivo.
Parece que é impossível ao ser humano conquistar toda sua verdade experiencial na existência enquanto ser-com!
Trata-se, porém, de uma META
Meta que perseguimos durante toda a vida: ser verdadeiros, ser fiéis a nós mesmos!  A Coragem de Ser
E quando temos essa determinação corajosa, vamos conquistando, a cada dia, mais  terreno  para o  nosso Ser Total,  nessa  árdua e laboriosa  busca existencial: a busca de Ser- que é, para nós ,  uma questão de vida ou morte!
Por que uma questão de Vida ou Morte?
Porque se  essa conquista trabalhosa,  paulatina e cotidiana for abandonada
( conquista que o próprio cliente busca em sua  terapia) o Ser definha e  cresce o modo  Parecer
A CURA: ser o que se está sendo
Enquanto a pessoa não se conscientizar e se tornar sabedora de que SER HUMANO é carregar contradições  vivenciais, o mal (o desamor) e o bem ( o amor)... Que a  luta de todos nós é ir vencendo o desamor paulatinamente, enfrentado primeiro o próprio desamor com AMOR e compreensão por nós mesmo, a CURA não se dá!
E, como nos convencemos de nossa paradoxal condição de humanidade?
Quando desistimos  de criar uma imagem abstrata, desvinculada do seu solo primordial e, então  abandonamos a secreta arrogância e descobrimo-nos  na humilde condição  de compartilharmos com os humanos que consideramos mais deploráveis, desejos e experiências semelhantes não reveladas,  e sentimos, mesmo assim,  respeito,  compaixão e amor  por nós, por eles  e pela espécie!
Isto é, somos simples e absurdamente humanos.

B- O déficit humano: A cristalização da Imagem Funcional
É  quando mesmo tendo consciência de si mesmo, do que pensa, sente e deseja, a pessoa decide por interesses outros, que não ser fiel à sua consciência. Decide simular aquilo que  está sendo,  visando alguma conquista que julga ser vantajosa para sua vida.
É a primazia  da Imagem Funcional!
A interrupção reiterada da associação entre a Imagem de nós mesmos e os sentimentos e sensações corporais definha a Imagem Real, desenraizando-a do seu solo nutritivo.
Ela adquire uma outra ordem de realidade: a ordem do Isso-  do utilitarismo- voltado contra a própria natureza.
Por que tal  abandono do próprio Ser? Porque  tudo é percebido, pela pessoa, do ponto de vista da possibilidade de servir para outra coisa, não na medida em que é algo em si mesmo... até as relações!.
Nessa encruzilhada da decisão pela  fidelidade ou não fidelidade a si mesmo, está implícita a cercania, a imediação do Outro, pois apenas a presença inquietante do Outro pode abalar o desenrolar  natural do fechamento do nosso Ciclo de Experiência.
Porque as condições subjetivas e as emoções que nos chegam, migram das situações vividas no mundo humano ou no mundo da convivência em especial.
Por que chamo de deslealdade da decisão?
Porque acredito que a formação da Gestalt a partir das vivencias primárias se encaminha para decisões ou ações apropriadas à natureza da Gestalt emergente. Pode não ser uma única e mesma decisão; mas é da mesma essência. Posso decidir tomar um suco ao ser informada da sede. O essencial é que haja suficiente teor de água pura  naquilo que eu decidir ingerir. Essa é a exigência da gestalt que precisou ser desenvolvida. Quando ofendo de forma injusta,  a ação necessária é a reparação. Não temos outra alternativa!
Assim,  ser autêntico, fiel a si mesmo, é também aderir a um ética inter-humana, para a qual o Outro é um Tu e não meramente um ente objetivado na sua utilização.
A ruptura ocorre quando a decisão desvirtuada contaminada por ideologias alienantes ou interesses puramente egóticos,  vai pautando sua ação ou sua atitude  de forma opositora  àquilo que é exigido  pela índole  inerente à sua condição de Ser-com.
Essa decisão  consiste em dar prioridades compulsórias a condutas e atitudes que,  em última instância, atendem a  interesses do Ter e do Poder em detrimento do Ser .      
Aí o pessoa opta por Parecer aquilo que pode lhe garantir o  Ter .
A decisão obstinada e egótica de Ter, como projeto último da existência pode, contudo, surpreender a quem a idolatra, porque o Ter assume  um  amplo espectro, nem sempre previsto por seu afiliado: ter Bens no lugar de Convivência, ter Sucesso e Fama no lugar de Realização, ter Status em lugar de Afeto,   ter Admiradores e Satélites circundantes em lugar de Amizades Genuínas; ter Poder em lugar de Amor...                                                                                                                                                             
 E o Ser   termina por definhar *“perdendo no desenlace” na  disputa épica com a Imagem construída  para  aquisisões e poder.
Essa é uma decisão insidiosa! Como uma hipertensão, age na surdina, sem fazer alerta!
Com muita sorte, é descoberta pelas crises existenciais da Identidade!  
 Mas, existe também, na espreita, o risco de só aparecer com a capitulação total do Ser, como faz, muitas vezes, a própria hipertensão.
(* Face a Face-Sueli Costa e Cacaso)

Aí vem a Crise...restauradora.
”.. “A crise é uma experiência de caos ou vazio interior, pela perda de sentido das coisas e de nós mesmos, ocasião na qual entramos num profundo processo de dúvidas e questionamentos. Justamente via o sofrimento que lhe é inerente, a crise é um momento de grande valor existencial porque representa não só o perigo de desconstrução, mas especialmente uma oportunidade fundamental de reconstrução da realidade pessoal. .
 A crise é um clamor obstinado... da existência da pessoa, para a escuta daquilo que é  realmente importante em sua vida!”
 Então a Crise Existencial não é uma doença; a crise é apelo à mudança, é processo de transformação... é justamente aquilo que precisa ser para a expansão da consciência integrada da pessoa sobre  a situação do seu modo- de- ser.
É preciso o olhar atentivo sobre ela, o ouvir o que está nos dizendo,  que posição ela nos conclama a assumir.
A via de mão dupla
Não determinamos o que vivenciamos. Isso é pré-reflexivo.
Mas determinamos o que fazer com as nossas vivências, inclusive ignorá-las.
Mas quando a gente toma a decisão de fazer diferente, a gente começa a sentir e vivenciar diferente. Porque encontra diferentes experiências de mundo.
Porque a resposta do mundo também se torna diferente.
É que a construção do  Eu é posterior à relação, repito.
E nesse conflito diário, que assedia a decisão do sujeito humano,  que se resume na velha e vigente questão trazida por filósofos e pensadores: a tensão entre Ser e Parecer...   a pessoa pode escolher o Ser, surpreendentemente!...
a despeito dos prejuízos e dos preços cobrados pelo desvio da  estrada corrente da   roda viva. Talvez porque tenha descoberto - que optar pelo Ser é optar  pela Realização do Sentido da Existência ou, no âmbito vivencial, pela descoberta dos rastros e vestígios da Felicidade, dizendo não às sedutoras promessas do Parecer para Ter quando em disputa com os reclames do Ser.
Ser, afinal, aquilo a que estamos destinados: Ser Pessoa... processo construído na parceria humana inevitável!”   
Quero finalizar citando  George Vaillant .
Psiquiatra e Professor em Harvard que, após ser diretor de uma pesquisa feita pelo Harvard Grant Study com 268 estudantes, homens, elaborou   uma das mais brilhantes e inspiradas sínteses que eu conheço sobre a felicidade humana e que traduz de forma contundente o que eu tento passar quando me refiro ao descaminho da decisão como gênese da Crise de Identidade Humana:
Descubro dois pilares básicos da felicidade: Um é o amor. O outro é encontrar uma forma de lidar com a vida que não deixe o amor de fora".       .
Porque decidir pela via do Amor é o mesmo que decidir pela Coragem de Ser .


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Da Velhice e da Exigência de Continuidade das Coisas
Marisete Malaguth Mendonça - 08 de Janeiro de 2016

Deixe o velho fazer ao modo dele! Senão vai se impor a angustiante questão: “tudo com que ele se identifica, acabou?”  “Não existe mais o seu jeito antigo de fazer o café?”  Então... “quem sou eu?” Diante do estranho, eu não me reconheço! A vida sofre uma interrupção, não continua, porque a sensação e a certeza de estar vivo precisa de referências externas! E novos modos são alheios! Eu os presencio, mas não me confirmam a existência. É ali onde não estou!  É preciso re-encontrar o familiar para que eu me re-encontre. Esse familiar é que me dá a certeza de continuidade...e portanto, de existir. A experiência da continuidade das coisas  é a própria experiência da permanência da vida, a certeza de que se está vivo. No envelhecimento, me parece ser, progressivamente, a única certeza! “As coisas continuam, então eu continuo”. É uma fase existencial em oposição polar à da criança, na qual a sensação de vida se dá na descoberta. As descobertas vão estruturando seu  edifício vital.
 Não estamos separados das coisas e do nosso jeito de lidar com elas. Nosso eu se forma no curso desse encontro e desse fazer. No encontro com as coisas, eu digo: “Eu lhe reconheço” E elas me dizem: “Eu lhe reconheço”. Reconheço e sou reconhecido. “Olhe! Essa é a chave velha da casa onde morei no bairro São Francisco!” A  velha chave confirma meu tempo vivido tanto quanto um velho amigo!
Para existirem, os velhos se apegam a seu lar. À sua terra. Ao seu país. Isso não significa necessariamente o medo da morte. Significa simplesmente a necessidade básica e primordial de estar certos de si mesmo. De não se perder no abismo e no caos do não-ser!
Por isso, o velho precisa de alguém familiar. Esse alguém garante a continuidade e, portanto, a  referência de si mesmo, tanto pela sua presença por anos de convivência como, em vista desse mesmo tempo,  tenha tornado natural e fácil a essa pessoa,  fazer DO JEITO QUE PRECISA SER FEITO, de modo a promover a tranquilidade no espírito inquieto do velho.
 Um aparente paradoxo nos surpreende: fragamo-lo escondendo sob sua quietude corporal, um insistente impulso da existência anímica,  impelindo-o ao voar fugitivo dessa mesma realidade permanente a que se apega. Talvez justamente por resistir a esse impulso, a ela se apega!

Goiânia, 08 de Janeiro de 2016


domingo, 14 de fevereiro de 2016


Holismo, Ecologia e Espiritualidade
Marisete Malaguth Mendonça
Apresentação do "Encontro Goiano da Abordagem Gestaltica" que teve esse título em Maio 2009

 sabe-se que o "Holismo é o princípio que ordena a formação de todos no universo". 

Esta palavra vem do grego HOLOS que significa "inteiro" ou "Todo" e refere-se à concepção do Homem, dos outros organismos e cada realidade fenomênica como entidades distintas, completas e, contudo, estreitamente interconectadas.
A Ecologia é uma ciência holística, porque afirma qualquer espécie de vida,todos os viventes, como interdependentes e existindo dentro de uma rede de relações extremamente complexas. Esta ciência deriva das preocupações com o meio ambiente, que adquire suprema importância na contemporaneidade.
 Quanto à Espiritualidade pode ser entendida, com Fritjof Capra, como o modo de consciência no qual o indivíduo tem uma sensação de pertinência, de conexidade, com os demais seres e com o cosmos como um todo, o que torna claro que a percepção ecológica é espiritual na sua essência mais profunda ¹

Assim o Holismo,  a Ecologia e a Espiritualidade comungam a mesma episteme, a mesma visão de mundo, ou seja, que todas as realidades estão em interação estreita, imersas numa unidade cada vez mais integrada e numa interdependência com alto grau de complexidade.

Este pensamento integrador encontra-se na raiz da Abordagem Gestáltica, manifestando-se na sua teoria, na sua prática clínica, mas fundamentalmente, no seu entendimento do sentido do humano.

Marisete Malaguth Mendonça


¹ Fritjof Capra, A Teia da vida, 1996.