Identidade Humana
e Crise
XXII Encontro- 22 de Maio de 2016
Marisete Malaguth Mendonça
E-mail: marisetemalaguth@gmail.com
Blog: mmalaguth.blogspot.com
Só aquilo que
somos realmente tem o verdadeiro poder de curar-nos."
Carl Gustav Jung
Roteiro:
O que é
Identidade
A Crise da Identidade
A busca do sentido de Ser
A Crise da Identidade
A busca do sentido de Ser
Conceito de
Identidade
Identidade é “a unidade do individuo
que tem o sentimento de permanecer parecido consigo mesmo pela diversidade de
estados por que passa em sua existência”
Dicionário de Filosofia- Gérard Durozoi e
André Russel, pág. 243
Crise da Identidade Pessoal
A Crise da Identidade se origina em dois processos:
A Crise da Identidade se origina em dois processos:
1- Na alienação
do Corpo.
De onde vêm as informações que nos mostram que
somos a mesma pessoa ao longo do tempo? Como essas informações chegam à nossa
consciência como subjetividade e como
identidade? Apenas pelas lembranças? E se esquecermos de nossas experiências
passadas como, realmente, é o que acontece com a maioria dos eventos vividos
por nós?
Como eu sei que sou Eu, isto é, conservo a minha identidade, a despeito
dos limites, enganos e lapsos da minha memória? Onde se alojam as informações
que me asseguram de mim mesma?
O senso
de identidade provém de uma sensação de contato com o corpo.
No corpo se alojam as funções de contato, que resultam nas nossas percepções
e sentimentos, conscientes ou não,
marcados pelo timbre de propriedade inconfundível porque sentidos no corpóreo, que é a minha mais concreta e inabalável certeza
da existência.
Eu sinto e sei que existo! Mesmo se perco a memória. Existo.
A alienação do Corpo é a
interrupção, a quebra da continuidade
das informações organísmicas corpóreas, pré-reflexivas, de modo que as
sensações e impressões vividas e
percebidas não chegam à consciência e, portanto, a pessoa
não sabe com clareza quem ela é.
O Ciclo do
Contato
No processo de interconexão corpo-mundo, é mobilizada no corpo, uma
energia que percorre um trajeto chamado por Perls et col.(e colegas) Ciclo de
Contato. Essas vivências corpóreas, constituem a consciência
pré-reflexiva, que evolue naturalmente
até a consciência reflexiva e, nos dão
noticia de nós e do mundo.
O pré-reflexivo é anterior à awareness
(antes de nos darmos conta,
vivemos o nível pré-reflexivo)
Estamos expostos a
uma dimensão existencial em que eu e mundo não se separam.
No
pré-reflexivo não existe distinção entre sujeito e objeto: não existe um
sujeito que percebe e um objeto que é percebido; um sujeito que escolhe um
objeto que é escolhido.
Apenas vivenciamos nosso estar no mundo de
forma completamente unitária, sendo aquilo que tem que ser, pela determinação exclusiva das condições do
campo, que nos inclui. Nesse nível, o nosso saber da realidade é rigorosa e
exclusivamente corporal -a consciência pré-reflexiva.
O pré-reflexivo é
a experiência original e originante, que funda e que
dá base à nossa experiência consciente ou à nossa awareness
A consciência pré-reflexiva não é antagônica à
reflexiva. Elas se complementam na awareness.
Esse é o caminho ou a evolução natural, na pessoa sadia,
do “dar-se conta”, do chamado “fluxo
de awareness”.
Campo das
possibilidades
O modo pré-reflexivo é o campo das
possibilidades, de onde surgem a consciência dos diversos modos possíveis de
ser.
A gestalt interrompida e fixa é a intervenção
da pessoa sobre a vivência pré-reflexiva, ao invés de assimilá-la. E isso nos
impede de alcançar as incontáveis
possibilidades de ser e de nos tornarmos.
O Ciclo de Contato, essa emergia que percorre o corpo até nossa awareness, acontece na gente, na pessoa. Ele não é
externo.
Mas é uma função do
Campo
Se nada acontece no
Campo, nada acontece no Ciclo!
“Como pode o homem sentir-se a si mesmo quando
o mundo some?” (Carlos Drummond de Andrade- Especulações em torno da palavra
homem-2002)
A Crise é a confusão sobre nós mesmos. É o tormento de nos sentir-se fora de nós, da perda das próprias sensações, do não reconhecimento dos próprios sentimentos, do não saber dos nossos próprios desejos, dos genuínos desgostos, das genuínas preferências, das dificuldades recorrentes de tomar decisões, por não saber o que quero ou o que não quero, do que gosto ou não, do que sofro ou do que me alegra.
A Crise é a confusão sobre nós mesmos. É o tormento de nos sentir-se fora de nós, da perda das próprias sensações, do não reconhecimento dos próprios sentimentos, do não saber dos nossos próprios desejos, dos genuínos desgostos, das genuínas preferências, das dificuldades recorrentes de tomar decisões, por não saber o que quero ou o que não quero, do que gosto ou não, do que sofro ou do que me alegra.
“Devo achar isso que aconteceu como bom ou
ruim?” “Devo me alegrar com isso ou devo me revoltar?” Esse é a condição da
identidade que apela para uma tutoria externa.
Eu posso achar ruim estar me alegrando com alguma
traquinice, mas eu sei que estou gostando! Isso pode até me doer! Só
assim o gosto “malvado” pela traquinice
pode se transformar. Mas eu tenho que saber dele!
Enfim, se minha identidade
é confusa, não distingo com clareza aquilo que já
conheço de mim daquilo que “se
sabe de repente” na expressão precisa de Ferreira Gullar, no poema Traduzir-se.
A identidade é a nossa consciência de nós mesmos, a nossa
autoconsciência. A questão surge, na
Psicologia, quando associamos a identidade ou qualquer experiência
subjetiva à uma consciência
inteiramente abstrata e atemporal, perdendo-se de vista a sua dimensão corpórea.
O corpo é o “lugar de um conhecimento
originário do mundo e de si próprio, um saber sensível que antecede o
conhecimento reflexivo, mas, ao mesmo tempo, o possibilita” (Merleau Ponty).
“A consciência só emerge como ato reflexivo a
partir do que é percebido pelo corpo”.
No Curso
“Significação do Sintomas, fui indagada: ”E os sintomas que se dão no corpo, os psicossomáticos?”
Todo sintoma é, em última análise, corporal.
Não só os psicossomáticos. O psicossomático apenas emerge como uma aparição,
digamos assim, pública do corpo sofrido. Mas qualquer sintoma se dá numa
corporeidade.
Então, a evitação das nossas experiências corporais vai nos levar a uma crise de identidade de
maior ou menor gravidade, em função de que sejam evitações eventuais, ocasionais, esporádicas, ou da cronicidade desse processo de evitação
ou interrupções permanentes das
vivências primárias.
A aceleração com
que podemos nos envolver na atualidade cotidiana, é um dos elementos
desencadeadores dessa confusão, pela precariedade temporal do contato consigo e
com o mundo.
A “ atitude
atentiva” é solapada pela subserviência à atitude cronometrada. “TEMPO É
DINHEIRO”
Se essas alienações das sensações originárias
atingem certa gravidade podem chegar à despersonalização
ou à psicose, pois o eu é posterior às relações que temos com o mundo.
Essa é a
primeira fonte da crise da
identidade: a alienação do próprio corpo.
2- O segundo
processo é a Crise da Identidade Humana pelo desenraizamento da decisão.
Nesse caso, a
informação corporal chega à consciência reflexiva. Porém a pessoa opta de
forma contrária à decisão exigida pela vivência pré-reflexiva
Essa decisão é descartada por interesses
outros que não a fidelidade a si mesmo. Existem duas possibilidades
dessa decisão infiel
O Falso Self
O deficit humano
A- O Eu Idealizado,
o chamado “ Falso Self”
Tudo que é apresentado ao próprio Eu ou ao mundo como auto-imagem ou hétero-imagem
sem corresponder às experiências organísmicas genuínas, constituem o
denominado Falso Self.
O falso self é uma infidelidade da decisão que não implica necessariamente
num déficit da humanidade de pessoa, mas
na necessidade de corresponder a expectativas
“Eu caçador de
Mim”
Assim, TODOS NÓS temos uma dimensão falsa no
nosso EU, algo que não corresponde ao nosso Self, ao nosso processo
original e genuíno, isto é, integrado ao
pré-reflexivo.
Parece que é impossível ao ser humano conquistar
toda sua verdade experiencial na existência enquanto ser-com!
Trata-se, porém,
de uma META
Meta que perseguimos durante toda a vida: ser
verdadeiros, ser fiéis a nós mesmos! A
Coragem de Ser
E quando temos essa determinação corajosa,
vamos conquistando, a cada dia, mais
terreno para o nosso Ser Total, nessa
árdua e laboriosa busca existencial:
a busca de Ser- que é, para nós , uma
questão de vida ou morte!
Por que uma
questão de Vida ou Morte?
Porque se essa conquista trabalhosa, paulatina e cotidiana for abandonada
( conquista que o próprio cliente busca em
sua terapia) o Ser definha e cresce o modo
Parecer
A CURA: ser o que
se está sendo
Enquanto a pessoa não se conscientizar e se
tornar sabedora de que SER HUMANO é carregar contradições vivenciais, o mal (o desamor) e o bem ( o
amor)... Que a luta de todos nós é ir
vencendo o desamor paulatinamente, enfrentado primeiro o próprio desamor com
AMOR e compreensão por nós mesmo, a CURA não se dá!
E, como nos
convencemos de nossa paradoxal condição de humanidade?
Quando
desistimos de criar uma imagem abstrata,
desvinculada do seu solo primordial e, então abandonamos a secreta arrogância e
descobrimo-nos na humilde condição de compartilharmos com os humanos que
consideramos mais deploráveis, desejos e experiências semelhantes não
reveladas, e sentimos, mesmo assim, respeito,
compaixão e amor por nós, por
eles e pela espécie!
Isto é, somos simples e absurdamente
humanos.
B- O déficit
humano: A cristalização da Imagem Funcional
É
quando mesmo tendo consciência de si mesmo, do que pensa, sente e
deseja, a pessoa decide por interesses outros, que não ser fiel à sua
consciência. Decide simular aquilo que
está sendo, visando alguma
conquista que julga ser vantajosa para sua vida.
É a primazia
da Imagem Funcional!
A interrupção reiterada da associação entre a
Imagem de nós mesmos e os sentimentos e sensações corporais definha a Imagem
Real, desenraizando-a do seu solo nutritivo.
Ela adquire uma outra ordem de realidade: a
ordem do Isso- do utilitarismo-
voltado contra a própria natureza.
Por que tal
abandono do próprio Ser? Porque tudo é percebido, pela pessoa, do ponto
de vista da possibilidade de servir para outra coisa, não na medida em que é
algo em si mesmo... até as relações!.
Nessa encruzilhada da decisão pela fidelidade ou não fidelidade a si mesmo, está
implícita a cercania, a imediação do Outro, pois apenas a presença
inquietante do Outro pode abalar o desenrolar natural do fechamento do nosso Ciclo de
Experiência.
Porque as condições subjetivas e as emoções
que nos chegam, migram das situações vividas no mundo humano ou no mundo da
convivência em especial.
Por que chamo de
deslealdade da decisão?
Porque acredito que a formação da Gestalt a
partir das vivencias primárias se encaminha para decisões ou ações apropriadas
à natureza da Gestalt emergente. Pode não ser uma única e mesma decisão; mas
é da mesma essência. Posso decidir tomar um suco ao ser informada da sede.
O essencial é que haja suficiente teor de água pura naquilo que eu decidir ingerir. Essa é a
exigência da gestalt que precisou ser desenvolvida. Quando ofendo de forma injusta, a ação necessária é a reparação. Não temos
outra alternativa!
Assim,
ser autêntico, fiel a si mesmo, é também aderir a um ética inter-humana,
para a qual o Outro é um Tu e não meramente um ente objetivado na sua utilização.
A ruptura ocorre quando a decisão
desvirtuada contaminada por ideologias alienantes ou interesses puramente
egóticos, vai pautando sua ação ou sua
atitude de forma opositora àquilo que é exigido pela índole
inerente à sua condição de Ser-com.
Essa decisão
consiste em dar prioridades compulsórias a condutas e atitudes que, em última instância, atendem a interesses do Ter e do Poder em detrimento
do Ser .
Aí o pessoa opta por Parecer aquilo que
pode lhe garantir o Ter .
A decisão obstinada e egótica de Ter,
como projeto último da existência pode, contudo, surpreender a quem a idolatra,
porque o Ter assume um amplo espectro, nem sempre previsto por seu
afiliado: ter Bens no lugar de Convivência, ter Sucesso e Fama no lugar de
Realização, ter Status em lugar de Afeto,
ter Admiradores e Satélites circundantes em lugar de Amizades Genuínas;
ter Poder em lugar de Amor...
E o
Ser termina por definhar
*“perdendo no desenlace” na disputa épica
com a Imagem construída para aquisisões e poder.
Essa é uma decisão insidiosa! Como uma
hipertensão, age na surdina, sem fazer alerta!
Com muita sorte, é descoberta pelas crises
existenciais da Identidade!
Mas, existe também, na espreita, o risco de só
aparecer com a capitulação total do Ser, como faz, muitas vezes, a própria
hipertensão.
(* Face a Face-Sueli Costa e Cacaso)
Aí vem a Crise...restauradora.
”.. “A crise é uma experiência de caos ou
vazio interior, pela perda de sentido das coisas e de nós mesmos,
ocasião na qual entramos num profundo processo de dúvidas e questionamentos.
Justamente via o sofrimento que lhe é inerente, a crise é um momento de grande
valor existencial porque representa não só o perigo de desconstrução,
mas especialmente uma oportunidade fundamental de reconstrução da
realidade pessoal. .
A crise é um clamor obstinado... da existência
da pessoa, para a escuta daquilo que é
realmente importante em sua vida!”
Então
a Crise Existencial não é uma doença; a crise é apelo à mudança, é processo de
transformação... é justamente aquilo que precisa ser para a expansão da
consciência integrada da pessoa sobre a situação
do seu modo- de- ser.
É preciso o olhar atentivo sobre ela, o
ouvir o que está nos dizendo, que
posição ela nos conclama a assumir.
A via de mão
dupla
Não determinamos o que vivenciamos. Isso é
pré-reflexivo.
Mas determinamos o que fazer com as nossas
vivências, inclusive ignorá-las.
Mas quando a gente toma a decisão de fazer
diferente, a gente começa a sentir e vivenciar diferente. Porque encontra
diferentes experiências de mundo.
Porque a resposta do mundo também se torna
diferente.
É que a
construção do Eu é posterior à relação,
repito.
E nesse conflito diário, que assedia a decisão
do sujeito humano, que se resume na
velha e vigente questão trazida por filósofos e pensadores: a tensão entre
Ser e Parecer... a pessoa pode escolher o Ser, surpreendentemente!...
a despeito dos prejuízos e dos preços cobrados
pelo desvio da estrada corrente da roda viva. Talvez porque tenha descoberto -
que optar pelo Ser é optar pela
Realização do Sentido da Existência ou, no âmbito vivencial, pela descoberta
dos rastros e vestígios da Felicidade, dizendo não às sedutoras
promessas do Parecer para Ter quando em disputa com os reclames
do Ser.
Ser, afinal, aquilo
a que estamos destinados: Ser Pessoa... processo construído na
parceria humana inevitável!”
Quero finalizar citando George Vaillant .
Psiquiatra e Professor em Harvard que, após
ser diretor de uma pesquisa feita pelo Harvard Grant Study com
268 estudantes, homens, elaborou uma das mais brilhantes e inspiradas sínteses que eu conheço sobre a felicidade humana
e que traduz de forma contundente o que eu tento passar quando me refiro
ao descaminho da decisão como gênese da Crise de Identidade Humana:
“Descubro dois pilares básicos da felicidade: Um é o amor. O outro é encontrar uma forma de lidar com a
vida que não deixe o amor
de fora". .
Porque decidir pela via do Amor é o
mesmo que decidir pela Coragem de Ser .
Maravilhoso!
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