quarta-feira, 3 de maio de 2017

Conflito na relação de dualidade:  Presença ou Falência da Estrutura  Dialogal
Marisete Malaguth Mendonça
Goiânia, 23 de Abril de 2017
        Todo relacionamento é pontuado por eventuais momentos de conflito. Essa situação não é só inevitável, mas sinal positivo de uma  relação madura e saudável do ponto de vista gestáltico. Em vista da condição de singularidade inerente a todo ser humano, é lógica e psicologicamente impossível uma relação em que a coincidência total entre desejos, necessidades e decisões aconteça. Quando não existe diferença na fronteira de contato entre o Eu e o Tu, estamos diante de uma  relação confluente, em que um Eu se mostra frágil e perigosamente sem limites próprios. Porém, se constatamos que o senso de identidade dos parceiros esteja íntegro, temos a pseudo- confluência, revelando  que a relação dual  está se configurando num modo de convivência autoritária ou de poder de um sobre um outro submetido. Em ambos os casos, vemos a falência da dialogicidade, uma convivência excluída do caráter do que é dialógico e, portanto incompatível com a saúde do sistema dual.
Os pequenos e eventuais conflitos  são resolvidos em decisões mútuas, em que a energia emocional requerida é de baixa intensidade e não altera a natureza dialogal da convivência habitual, que, via de regra, se reequilibra  num nível de maior integração que o nível anterior em que se achava.
Quando falamos de Conflito Dual, não nos referimos ao evento relacional descrito acima. Com frequência, nos referimos  a situações permanentes, carregadas de intensa energia emocional, resultando em experiências muito  estressantes para o casal e  colocando em risco a permanência do relacionamento, a  cisão  por desavenças, desentendimentos e  indisposições não superados.

Podemos usar a tese dialógica de Martin Buber, como parâmetro por intermédio do qual tentamos alcançar a compreensão da relação dual. Este  autor não poupou esforços durante toda a sua vida, dedicando-se de forma profundamente inspirada, ao entendimento da interrrelação humana..
 O princípio fundamental da relação buberiana se acha no conceito de “entre”. Tudo acontece “entre nós”. Isso quer dizer que o outro se reconhece através de nós e nos reconhecemos através dos outros. Ingressamos no nosso ser através do relacionamento. A natureza do relacionamento é produto do encontro do EU com o TU.                                                                                                                                                          O que acontece nesse “entre” que configura a imutabilidade da estrutura de conflito?
Existem várias possibilidades de entendimento dessa estrutura relacional. Não é nossa intenção esgotar todas elas. Pelo contrário, pretendemos contribuir aqui, com um modelo que permite uma abordagem parcial,  rápida e pragmática da relação dual, com destaque especial  para a  relação de casal. Nesse modelo, utilizaremos duas categorias: eventos costrutivos e eventos destrutivos da relação.  Tudo acontecendo  no “entre dois”, tanto os eventos relacionais mais ou menos construtivos como os eventos  mais ou menos destrutivos do encontro. Cada um dos parceiros provavelmente contribui com eventos de ambas as categorias, sendo muito oportuno e de utilidade funcional no processo terapêutico, identificar com a dupla, quais eventos tendem a construir e quais tendem a destruir a parceria entre os dois.
Chamamos de eventos construtivos as mensagens verbais, não verbais e corporais que aumentam a auto-estima do parceiro, colaboram e contribuem para o seu projeto existencial. (lembremos Buber: Ingressamos no nosso ser através do relacionamento”)
Eventos destrutivos são mensagens verbais, não verbais e corporais que diminuem a auto-estima do parceiro e tendem a  boicotar, ou mesmo boicotam, o seu projeto existencial.
Normalmente a emissão de eventos destrutivos tem a ver com as gestalten não resolvidas de um ou de ambos, que as pessoas nem estão cônscias delas. Toda situação não resolvida tende a resolver-se ou fechar-se no encontro presente; sendo a situação de intimidade a mais privilegiada para a tentativas de resolução, pois esta ( a situação de intimidade) são as que mais reeditam processos vividos anteriormente. Como as gestalten não resolvidas são carregadas de intensa energia emocional bloqueada, é natural que pequenas reedições presentes resultem em reações de muito descontrole e estresse. O Terapeuta deve examinar não só quais as gestalten interrompidas emergentes na relação, mas em especial COMO elas estão tentando ser resolvidas entre os dois. Isso quer dizer que a forma eleita por um dos parceiros ou por ambos, pode estar contribuindo para a ruptura do sistema dual ou familiar. Mesmo, na rara circunstância em que apenas um dos parceiros é emissor de mensagens destrutivas, a relação acontece entre os dois e, inevitavelmente, a resposta do outro  parceiro será dirigida àquilo que está sendo vivido no encontro. É, portanto, inevitável que todas as mensagens verbais, não verbais e corporais que promovem o ser do outro ou que o diminuem, gerem reações sintônicas correspondentes (reações que  co-respondam: dão respostas à situação  mútua).

Mas como escapar das nossas gestalten não resolvidas? Mas é justamente isso o que está sendo feito por esse casal! Tentando escapar delas!¹  E pelo contrário, não há que escapar! Devemos sim, nos tornar conscientes dela! A consciência dos nossos antigos impedimentos nos mostra que eles persistem sendo impedidos aqui e agora e nos possibilita lidar de forma nova e funcional com essas questões. O Gestalt-terapeuta não precisa buscar no passado a Gestalt interrompida; ela se apresenta na relação dual ao vivo e portanto, o terapeuta deve facilitar o diálogo entre os dois. Nesse diálogo, deve ficar evidente  como cada um está contribuindo para a construção ou ruptura da relação. Nem sempre podemos saber se construímos ou destruímos pela simples observação, mesmo esta obsevação sendo atenta e focada. A repercussão no outro pode não ser uma gestalt clara, bem observável, quanto mais contida ou bloqueada  for a espontaneidade desse parceiro ou parceira. Por isso, a tarefa do Gestal-terapeuta de casal é criar um ambiente clínico seguro, sem cumplicidade parcial com nenhum dos dois, a ponto de facilitar a expressão sincera das repercussões construtivas e negativas de um sobre o modo-de-ser do outro.  A comunicação dessas repercussões pessoais é sempre uma inesperada novidade para cada um dos parceiros. E, algumas vezes, uma surpreendente e feliz novidade. A atitude de omitir a expressão de sentimentos amorosos de afeto, ternura, admiração preocupação e cuidado para com o outro é também surpreendentemente comum!
Por isso, na Abordagem Gestáltica, dizemos que a terapia de casal é basicamente a terapia da restauração do dialogo interrompido entre eles. Com a descrição das vivências sob o modelo dialógico personificado pelo próprio Terapeuta que, também  incentiva o seu exercício entre o casal, tentamos que os conflitos  oriundos das nossas injúrias passadas sejam expressos e se resolvam de forma nova, criativa a ajustada aos reais elementos do encontro presente.
Esperamos que fique claramente subentendido que estamos nos referindo ao casal que deseja preservar e manter o relacionamento, ou seja aquele em que a chama do vínculo amoroso ainda está acesa. Se a chama se apagou, não há nada a fazer. Esgotou-se o combustível. Agora, é partir para outra. Acender o lampião seguinte.
Matisete Malaguth Mendonça-

Goiânia\Go. Em 23\04\2017                      
¹“Eu tentei fugir de mim\Mas onde eu, ia eu tava\Quanto mais de mim corria\ mais perto de mim chegava” (Juraíldes da Cruz, cantor e compositor goiano)


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