Conflito
na relação de dualidade: Presença ou Falência
da Estrutura Dialogal
Marisete Malaguth Mendonça
Goiânia, 23 de Abril de 2017
Todo
relacionamento é pontuado por eventuais momentos de conflito. Essa situação não
é só inevitável, mas sinal positivo de uma relação madura e saudável do ponto de vista
gestáltico. Em vista da condição de singularidade inerente a todo ser humano, é
lógica e psicologicamente impossível uma relação em que a coincidência total
entre desejos, necessidades e decisões aconteça. Quando não existe diferença na
fronteira de contato entre o Eu e o Tu, estamos diante de uma relação
confluente, em que um Eu se mostra frágil e perigosamente sem limites
próprios. Porém, se constatamos que o senso de identidade dos parceiros esteja íntegro,
temos a pseudo- confluência, revelando
que a relação dual está se configurando num modo de convivência
autoritária ou de poder de um sobre um
outro submetido. Em ambos os casos, vemos a falência da dialogicidade, uma
convivência excluída do caráter do que é dialógico e, portanto incompatível com
a saúde do sistema dual.
Os pequenos e eventuais conflitos são resolvidos em
decisões mútuas, em que a energia emocional requerida é de baixa intensidade e
não altera a natureza dialogal da convivência habitual, que, via de regra, se
reequilibra num nível de maior
integração que o nível anterior em que se achava.
Quando
falamos de Conflito Dual, não nos
referimos ao evento relacional descrito acima. Com frequência, nos
referimos a situações permanentes,
carregadas de intensa energia emocional, resultando em experiências muito estressantes para o casal e colocando em risco a permanência do
relacionamento, a cisão por desavenças, desentendimentos e indisposições não superados.
Podemos
usar a tese dialógica de Martin Buber, como parâmetro por intermédio do qual tentamos alcançar a compreensão da relação dual. Este autor não poupou esforços durante toda a sua
vida, dedicando-se de forma profundamente inspirada, ao entendimento da interrrelação
humana..
O princípio fundamental da relação buberiana
se acha no conceito de “entre”. Tudo acontece “entre nós”. Isso quer dizer que o outro se reconhece
através de nós e nos reconhecemos através dos outros. Ingressamos no nosso ser através do
relacionamento. A natureza do
relacionamento é produto do encontro do EU com o TU. O que acontece nesse “entre” que
configura a imutabilidade da estrutura de conflito?
Existem várias
possibilidades de entendimento dessa estrutura relacional. Não é nossa intenção
esgotar todas elas. Pelo contrário, pretendemos contribuir aqui, com um modelo que permite uma abordagem parcial, rápida e pragmática da relação dual, com
destaque especial para a relação de casal. Nesse modelo, utilizaremos duas categorias: eventos costrutivos
e eventos destrutivos da
relação. Tudo acontecendo no “entre
dois”, tanto os eventos relacionais mais ou menos construtivos como os eventos mais
ou menos destrutivos do encontro. Cada um dos parceiros provavelmente contribui
com eventos de ambas as categorias, sendo muito oportuno e de utilidade funcional
no processo terapêutico, identificar com a dupla, quais eventos tendem a
construir e quais tendem a destruir a parceria entre os dois.
Chamamos
de eventos construtivos as mensagens
verbais, não verbais e corporais que aumentam a auto-estima do parceiro, colaboram e contribuem para o seu projeto
existencial. (lembremos Buber:“ Ingressamos no nosso ser através do relacionamento”)
Eventos
destrutivos são mensagens verbais,
não verbais e corporais que diminuem a auto-estima do parceiro e tendem a boicotar, ou mesmo boicotam, o seu projeto
existencial.
Normalmente
a emissão de eventos destrutivos tem
a ver com as gestalten não resolvidas
de um ou de ambos, que as pessoas nem estão cônscias delas. Toda situação não
resolvida tende a resolver-se ou fechar-se no encontro presente; sendo a
situação de intimidade a mais privilegiada para a tentativas de resolução, pois
esta ( a situação de intimidade) são as que mais reeditam processos vividos
anteriormente. Como as gestalten não
resolvidas são carregadas de intensa energia emocional bloqueada, é natural que
pequenas reedições presentes resultem em reações de muito descontrole e
estresse. O Terapeuta deve examinar não só quais as gestalten interrompidas emergentes na relação, mas em especial COMO elas estão tentando ser
resolvidas entre os dois. Isso quer dizer que a forma eleita por um dos
parceiros ou por ambos, pode estar contribuindo para a ruptura do sistema dual
ou familiar. Mesmo, na rara circunstância em que apenas um dos parceiros é
emissor de mensagens destrutivas, a relação acontece entre os dois e, inevitavelmente, a resposta do outro parceiro será dirigida àquilo que está sendo
vivido no encontro. É, portanto, inevitável que todas as mensagens verbais, não
verbais e corporais que promovem o ser do outro ou que o diminuem, gerem
reações sintônicas correspondentes (reações que
co-respondam: dão respostas à situação
mútua).
Mas
como escapar das nossas gestalten não resolvidas? Mas é justamente isso o que
está sendo feito por esse casal! Tentando escapar delas!¹ E pelo contrário, não há que escapar! Devemos sim,
nos tornar conscientes dela! A consciência dos nossos antigos impedimentos nos
mostra que eles persistem sendo impedidos
aqui e agora e nos possibilita lidar de forma nova e funcional com essas
questões. O Gestalt-terapeuta não precisa buscar no passado a Gestalt
interrompida; ela se apresenta na relação dual ao vivo e portanto, o terapeuta deve facilitar o diálogo entre os
dois. Nesse diálogo, deve ficar evidente como cada um está contribuindo para
a construção ou ruptura da relação. Nem sempre podemos saber se construímos ou
destruímos pela simples observação, mesmo esta obsevação sendo atenta e focada. A
repercussão no outro pode não ser uma gestalt clara, bem observável, quanto
mais contida ou bloqueada for a
espontaneidade desse parceiro ou parceira. Por isso, a tarefa do
Gestal-terapeuta de casal é criar um ambiente clínico seguro, sem cumplicidade parcial
com nenhum dos dois, a ponto de facilitar a expressão sincera das repercussões construtivas e negativas de um sobre o modo-de-ser do outro. A comunicação dessas repercussões pessoais é sempre uma inesperada novidade para cada um dos parceiros. E, algumas vezes, uma surpreendente e feliz novidade. A atitude de omitir a expressão de sentimentos amorosos de afeto, ternura, admiração preocupação e cuidado para com o outro é também surpreendentemente comum!
Por isso, na Abordagem Gestáltica, dizemos que a terapia de casal é basicamente a terapia da restauração do dialogo interrompido entre eles. Com a descrição das vivências sob o modelo dialógico personificado pelo próprio Terapeuta que, também incentiva o seu exercício entre o casal, tentamos que os conflitos oriundos das nossas injúrias passadas sejam expressos e se resolvam de forma nova, criativa a ajustada aos reais elementos do encontro presente.
Esperamos que fique claramente subentendido que estamos nos referindo ao casal que deseja preservar e manter o relacionamento, ou seja aquele em que a chama do vínculo amoroso ainda está acesa. Se a chama se apagou, não há nada a fazer. Esgotou-se o combustível. Agora, é partir para outra. Acender o lampião seguinte.
Matisete Malaguth Mendonça-
Goiânia\Go. Em 23\04\2017
¹“Eu
tentei fugir de mim\Mas onde eu, ia eu tava\Quanto mais de mim corria\ mais
perto de mim chegava” (Juraíldes da Cruz, cantor e compositor goiano)
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