quarta-feira, 3 de maio de 2017

Sobre a Consciência e o Cuidado

Marisete Malaguth Mendonça
 09\11\2016

 Minha tia foi criada em fazenda e, como filha mais velha, recebeu do pai a tarefa de matar os gatinhos recém-nascidos e jogá-los no córrego cristalino que corria caudaloso no fundo do extenso quintal da casa. Tornou-se uma mulher alegre, saudável e solidária para com todos ao seu redor, que viveu até os 96 anos uma vida feliz e divertida, viajando pelo país e morrendo serenamente, em casa, após essa idade. Ela não tinha consciência dos gatinhos como seus semelhantes, enquanto seres viventes.
 A Consciência é que adoece o sujeito de uma culpa não reparada. Sem Consciência, o sujeito vive uma vida natural, feliz ou indiferente. Os torturadores da Ditadura que morreram de câncer foram aqueles em quem ainda restava uma Consciência da mesmidade humana de todos os homens e, por isso, do mal que praticaram. Torturadores inconscientes morreram velhos e saudáveis, exceto pela decadência própria da velhice de todos nós*. Os psicopatas vivem tranquilos desde que não corram o risco de serem punidos. Não significa que estes indiferentes ante o erro e a maldade não tenham Conhecimento. Porque a Consciência não é Conhecimento. O Conhecimento é uma apreensão que o sujeito faz do outro (qualquer ente vivo ou coisa) enquanto um objeto de sua observação ou do seu interesse, apreendendo-lhes algumas características observáveis ou alguns perfis de sua manifestação. Ao Conhecimento, enquanto tal, não interessam considerações sobre o Bem e o Mal. Esse é o papel da Consciência. A Consciência é a visão da essência ou da realidade das coisas, partindo naturalmente da observação atenta, mas penetrando naquilo que está presente, embora não seja visto. A Consciência está inerentemente vinculada ao sentimento de pertencimento e empatia. Assim, é uma experiência vivencial e não apenas racional. A realidade é percebida como um todo, não em todas as suas possibilidades, mas na sua essência e na sua interconexão com o observador.
 Com frequência, os termos Conhecimento e Consciência são usados de forma indiscriminada. Mas estou, aqui,fazendo uma distinção. Podemos então falar em Consciência Holística (referindo-nos a esta visão das essências da coisa e das suas interconexões, logo, da percepção de pertencimento vivida pelo sujeito consciente) e de Consciência Racional (ao Conhecimento do objeto separado do sujeito). 
 Parece que a Consciência surgiu para o Social ou para o Outro. Para cuidar de si mesmo não é preciso a Consciência. Basta a integridade física e o Conhecimento dos recursos do meio. É uma tarefa natural e inata, necessária à sobrevivência do individuo, homem ou animal. Já a Consciência (no sentido descrito)foi desenvolvida no processo evolutivo para que o homem cuidasse do outro e da natureza. Tanto que, no sábio e ancestral mito do Paraíso, ao comer da árvore do Bem e do Mal, Adão e Eva perderam a paz ingênua em que viviam. Assim como eles,  não podemos descansar em paz quando somos conscientes do mundo que clama. E tomaram concretamente a tarefa de cuidar não só de si, mas de toda a natureza. Como  é exigido  de nós, ante esse mesmo mundo. E daí para frente, começaram a sofrer as consequências dos seus atos e das suas culpas, ante o desvio da missão que a Consciência lhes reclamava cumprir. A culpa não é o castigo da Consciência. A culpa é o aviso da Consciência de que não estamos certos ou omissos com o cuidado com o Outro, com a Comunidade ou com a Natureza e, mais raramente, talvez até conosco mesmo. 
 Aliás, as biografias indicam que para um cientista genial e legítimo, o Conhecimento Racional é ultrapassado, a certo momento do estudo, pela Consciência da essência ou da verdade do objeto. Porque o Conhecimento real evolui para a Consciência Holística. E então, este cientista é tomado por profunda reverência e humildade ante a coisa que se desvelou, jamais possuído por vaidade, soberba ou arrogância ante a “posse do conhecimento”. Porque assim, se tornariam meramente homens de muito conhecimento e pouca sabedoria! Pois muito conhecimento pode-se adquirir em qualquer chip de computador atualmente. Já a sabedoria não pode ser adquirida. Ela se  des-envolve do impacto do mundo que cai, de surpresa,  sobre mim e me deixa em choque, num espanto admirado e mudo ante ele.

 (Pensamento acessado numa página sufista: “Não é uma tarefa fácil lidar com a clareza em um mundo de cegos. Ver aquilo que outros não vêem é um desafio a ser enfrentado com serenidade e coragem. A sensação de isolamento é forte, um grande desafio a ser superado”.
em: http://despertarcoletivo.com/os-quatro-inimigos-do-homem-de-conhecimento)

 *Como o ditador e torturador Augusto Pinochet, que faleceu em 2006.

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